21 de mai de 2017

ORQUESTRA GOLPISTA


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No final do primeiro mandato de Dilma Rousseff, a taxa de desemprego era inferior a 5%. Vínhamos de um período de crescimento como nunca visto antes. Algumas medidas econômicas eram necessárias devido à perda de fôlego do PIB, por isso, as medidas propostas tão logo vencemos as eleições de 2014.
O que se passou a seguir todos conhecemos: Eduardo Cunha, pautas-bomba, boicote no Congresso Nacional e na mídia, em especial na Rede Globo, as ações no TSE pela recontagem de votos, o choro de Aécio e o financiamento de supostas entidades populares que mobilizaram parcela da classe média, com super cobertura da imprensa, na esteira dos protestos de 2013.
Como numa orquestra, cada músico assumiu seu papel de forma a executar a melodia do impeachment. Uns, solistas, tocavam no momento certo enquanto outros, coadjuvantes, harmonizavam a música para que soasse perfeita.
Tudo sob o comando do maestro, do regente, cuja responsabilidade foi unir todos os instrumentos para que tocassem a mesma partitura, para que o resultado fosse apoteótico.
Mas não foi exatamente isso que aconteceu. Ao que parece, ainda ecoam trechos de notas musicais emitidas por solistas e coadjuvantes, soltos, fora do tom e do ritmo, sem que o maestro consiga contê-los ou, pelo menos, colocá-los na mesma sinfonia.

Desde o início do golpe tenho a sensação de que o maestro é um profundo conhecedor do marketing social e político. Minha desconfiança é de que seja alguém do mercado, da mídia, da TV; alguém que saiba compor um enredo de novela, uma trama com chamadas para o intervalo que deixam uma expectativa para o próximo capítulo. Quem entende de comportamento econômico e, com absoluta confiança, é capaz de unir forças no mercado financeiro para alcançar seus objetivos.
Cada um imagine quem quiser, mas é certo que houve um comando.

Por partes.
A Lava Jato e suas operações.
Teoricamente, o Ministério Público Federal do PR preparava as investigações e as submetia ao Juiz Sérgio Moro, que as confirmava e remetia à Polícia Federal. Eram colhidas provas através de busca e apreensão, grampos telefônicos, interrogatórios. O MPF pedia a prisão dos suspeitos e Moro sempre as confirmava. Todas as fases da Lava Jato seguiram o mesmo roteiro. E na instância superior, no TRF-4, quase todas as decisões são confirmadas.

O Procurador Geral da República Rodrigo Janot
Aparentemente, Janot não estava envolvido nas decisões dos Procuradores de Curitiba. É de se supor que nem soubesse dos pedidos de investigação, pelo menos, em detalhes. Como chefe da Procuradoria Geral, não se manifestou após a desastrada exibição televisiva da acusação contra Lula com o PowerPoint. Talvez nem soubesse da coletiva de imprensa convocada por Dalagnol para o espetáculo que se produziu.
Rodrigo Janot sempre esteve à margem de todas as operações da Lava Jato sem, entretanto, se distanciar do centro do processo. Era necessário que ele pedisse ao STF a abertura de inquéritos quando o investigado tinha foro especial. Deputados e Senadores petistas.

O Supremo Tribunal Federal e seus 11 juízes
Como disse Mário Sérgio Cortela, talvez nenhum de nós saiba dizer a escalação dos 11 jogadores que atuaram pela seleção brasileira no último jogo do Brasil, pelas eliminatórias da Copa. Mas o nome dos 11 juízes do STF, todos conhecemos. Nome e sobrenome.
O protagonismo dos magistrados da Corte Suprema nunca foi tão evidente. Entrevistas em jornais e TVs, coletivas quase diárias, manifestações de opinião frequentes, imagens nos telejornais, holofotes e microfones.
Uns mais falantes que outros, mas todos, sem exceção, eram personagens carimbados no Jornal Nacional desde a segunda campanha eleitoral de Dilma Rousseff. Ainda antes da abertura do processo de impeachment, em 2016.

O Congresso Nacional e Eduardo Cunha
Hoje se sabe, pela delação da JBS, que Cunha controlava boa parte dos Deputados Federais comprando votos em dinheiro vivo. Mas, mesmo antes da delação, todos sabiam do poder de Cunha no baixo clero da Câmara, comprovado por sua eleição à Presidência da mesma Câmara com larga margem de votos.
E, também, logo após a chantagem explícita feita contra o PT, para que a bancada não votasse pela abertura do processo de sua cassação no Conselho de Ética da casa, que resultou na aceitação do processo de impeachment contra Dilma.
Houve grande movimentação para que Deputados da base parlamentar de Dilma a traíssem. De todos os partidos, em especial os do PMDB de Cunha.
No Senado Federal, ocorreu o mesmo sob comando de Renan Calheiros, PMDB.

A oposição
A oposição ao Governo agiu como oposição. PSDB, DEM e PPS se mantiveram unidos ao PMDB, como era de se esperar.

michel temer
Talvez seja a figura menos importante na orquestra. Um músico minúsculo que pouco tocou, duas ou três notas, apenas. Nunca teve envergadura política para ser solista. Muito menos, regente.
Decorativo, marionete, protocolar, coadjuvante. Apenas aceitou servir aos interesses da orquestra em troca de, como se comprova hoje, dinheiro!
Não foi dele a articulação do golpe. Foi a herança que lhe caiu no colo por ter sido o vice na chapa vencedora.
A velha mídia
Cada um dos veículos de comunicação realizou seus solos durante a execução da música.
Descontentes com a redistribuição de verbas da publicidade oficial,entre outros motivos, tinham como meta derrubar o PT e destruir qualquer possibilidade de uma quinta vitória à Presidência da República.
Resultado de imagem para orquestrIsso ficou claro desde o primeiro governo Lula, na cobertura da AP 470, o mensalão. A ideia era impedir Lula de se reeleger deixando-o sangrar, como declarou FHC no ano de 2006.
Não surtiu efeito e o PT venceu as três eleições seguidas ainda que boa parte da imprensa se engajasse nas campanhas de Alckmin, Serra e Aécio. Sem resultado.
Para mim, a articulação intelectual do golpe, a organização das ações e o planejamento estratégico de marketing se localizam na velha mídia. Muito provavelmente na Rede Globo com participação e cooperação dos outros veículos de comunicação golpistas.
Um ou mais cérebros pensantes comandam a execução da sinfonia através de seus jornalistas e editores-chefes coordenando cada instrumento da orquestra, cada nota, cada solfejo, cada tom, cada grave e cada agudo.

Não é possível imaginar que um Juiz, um Procurador ou um delegado da Polícia Federal, gente preparada para julgar, denunciar ou cumprir mandatos, seja capaz de pensar nas formas como devem ser expostas suas ações técnicas à população.
Quem acredita que partiu de Deltan Dalagnol a ideia de montar a denúncia do PowerPoint para apresentação em entrevista coletiva?
Quem acredita que Sérgio Moro fosse capaz de vazar, por sua própria conta e risco, o grampo entre Lula e Marisa e seus filhos, ou entre Lula e Dilma, sabendo, como magistrado, da ilegalidade do ato? E no minuto certo para a repercussão no jornal da noite... Só se tivesse certeza de não ser punido.
Quem acredita que a Polícia Federal tivesse a genial ideia de criar um agente-garoto-propaganda, o japonês, a cada prisão de petista? Ou montar um aparato de SWAT, com helicópteros, máscaras ninja e sirenes para levar Lula, um homem de 70 anos, a depor no aeroporto de Congonhas sob intensa cobertura, desde a véspera, dos jornais?
Parece óbvio que o maestro era o condutor de cada gesto destes três grupos de músicos e que eles, cada um em seu momento, foi mero executor da partitura.

O mesmo se deu com Rodrigo Janot, com os 11 juízes do STF, com o PMDB de Eduardo Cunha e michel temer e com a oposição.
Cada ato, cada palavra, cada entrevista, cada editorial cuidadosamente elaborado para dar a sequência perfeita à melodia.

Então se deu o golpe, Dilma foi destituída e temer assumiu com o compromisso de privatizar e reformar tudo o que fosse possível para pagar pelo serviço aos grandes financiadores da derrubada de Dilma Rousseff: o mercado financeiro e grandes empresas, incluídas as petroleiras estrangeiras ávidas pelo Pré-Sal.

Mas, como nem sempre as orquestras terminam a música ao mesmo tempo, solistas e coadjuvantes decidiram continuar a tocar. Desta vez sem o maestro, que já não os controlava mais. Os músicos, diante da perda da função, não queriam voltar ao obscurantismo, ao anonimato, às profundezas de seus cargos públicos. Queriam mais, queriam tocar o que os fizesse continuar protagonistas.

Imagem relacionadaIsso não é apenas uma teoria.
Vejamos os fatos desde a queda de Dilma Rousseff.

1) Ainda útil, Sérgio Moro e seus Procuradores concursados são mantidos em evidência apenas para tirar Lula da corrida presidencial de 2018. Com grandes chances de vitória, Lula pode derrotar o golpe. De nada terá valido tirar Dilma e permitir a vitória de Lula.

2) Um dos músicos menos ouvidos, entretanto, acaba de demonstrar sua força. Rodrigo Janot.
Age sozinho, não é muito falante nem aparece com frequência nas TVs e jornais. Certamente possuiu algum respaldo no STF e na Procuradoria.
Foi ele que costurou a delação dos donos da JBS com todo o cuidado para não cometer os erros primários, mas propositais, da 13° Vara Federal de Curitiba.
Com uma rede de proteção contra vazamentos, envolveu um ou mais juízes do STF, delegados e agentes da PF e Procuradores sob seu comando. Acertou a negociação de benefícios com os irmãos Batista, da JBS, grampeou Senadores, Ministros do Supremo, Ministros da República e, até, o Presidente temer.
Montou uma peça de acusação como deve ser, com provas, documentos, áudios, vídeos, chips em malas de dinheiro previamente numerado.
Tudo pronto, encaminhou o pedido de inquérito ao Ministro Edson Fachin à revelia da Lava Jato e à revelia da própria TV Globo.

Notem que o vazamento ao jornal O Globo deixa claro que nem o conglomerado de mídia tinha conhecimento dos detalhes do processo. O portal G1 vazou à tardezinha mas o Jornal Nacional só teve conhecimento poucos momentos antes de entrar no ar. A ponto de os apresentadores posarem com ar de surpresa a cada texto que liam no teleprompter.

3) O STF sempre será o solista maior da orquestra. É dele que saem as decisões que colorem com um ar de legalidade o golpe. Os juízes sempre poderão anular o impeachment e responsabilizar os golpistas, não faltarão argumentos para que 6 dos 11 desmontem a farsa. Por isso é importante mantê-los sob controle do maestro. Por isso continuam diariamente expostos.

4) Sem utilidade, Eduardo Cunha é entregue a Moro e vai preso. Sua esposa, Cláudia Cruz e sua filha, Daniele Dytz, nunca foram indiciadas na Lava Jato. Certamente a pedido de Cunha e de quem o protege.
Mesmo preso, Cunha recebe mesada da JBS para manter seu silêncio.
Já o Congresso, parcialmente comprometido por idealismo ou dinheiro, se vê diante de seu maior dilema: aprovar medidas contra os trabalhadores e não ser reeleito em 2018.
Além disso, os que receberam benefícios em troca de apoio político podem ser presos caso percam o foro do STF.
A campanha 2018 para o Legislativo terá muitas acusações dos adversários e muitos Deputados e Senadores, com certeza, cairão. Tanto na direita quanto na esquerda.
De toda a orquestra, o Legislativo Federal é o mais sensível à opinião pública, mas só alguns poucos candidatos serão protegidos. Quais?

Resultado de imagem para orquestra5)  A oposição, PSDB, DEM e PPS, que esperava alguma vantagem no processo golpista, também se viu arrastada para o epicentro da delação da JBS. Num eventual governo tucano, Rodrigo Janot nunca seria reconduzido ao cargo de Procurador Geral e desapareceria por completo. Talvez essa seja a razão da inclusão de tucanos de penugem colorida.
Por falta de nomes, o PSDB deverá se lançar numa viagem suicida se apostar em Doria ou Huck ou, quem sabe, apostar em Bolsonaro ou Marina. Em qualquer cenário, perde espaço; seus poucos caciques foram desabilitados, diferentemente do PT que ainda tem Lula.

6) michel temer foi arremessado ao fundo do palco, sua partitura foi arrancada pelo jornalismo como quando um boi é atirado no rio para atrair as piranhas.
Acabou, é apenas questão de tempo. Completamente desmoralizado, apesar de alguns setores da imprensa ainda tentarem salvá-lo, está sem qualquer apoio. Nem nos jornais, nem no Congresso, nem nas ruas, onde nunca teve sustentação.


E a imprensa, e a Rede Globo?
Perdeu a articulação, o comando, a regência da orquestra. Seu jornalismo passou a ser pontual, é notório que, pelo menos a Globo, perdeu o controle de seus músicos. Talvez o erro tenha sido ignorar Janot ou, quem sabe, ter dado muito holofote a outros intérpretes.

Um conjunto de erros nos trouxe até aqui. Permitiram que solistas e coadjuvantes escolhessem sua partitura e cada um passou a tocar o que bem quis.
Uma coisa é certa: a velha mídia, em especial a Rede Globo, não vai permitir que Lula seja candidato. Se for, vai impedir que seja eleito. Se ele ganhar, vai obstruir sua posse e, se tomar posse, vai querer derrubá-lo com os meios que tiver. Qualquer um. Ou todos.

As manifestações públicas de Lula desde o processo de impeachment são claras e diretas. Os ataques à mídia e a Globo são frequentes e, caso a população o eleja, tomará medidas para tirar o poder imperial destes grupos políticos travestido de jornalistas.


Resultado de imagem para orquestraO Brasil está pegando fogo e tudo leva a crer que mais gasolina será jogada na fogueira.
Venho construindo essa tese desde a noite em que foi anunciada a vitória de Dilma Rousseff.
Para mim está bastante claro que a música que vimos ouvindo não é a música que gostaríamos de ouvir apesar de setores da classe média acreditarem que sim. Já vivemos momentos extremos de fragilização da Democracia no passado, mas, hoje, uma forte divisão se apoderou da sociedade brasileira e as consequências são incontroláveis.

Minha geração falhou.


Devíamos ter seguido a Argentina, Uruguai e, até, o Paraguai, tínhamos que ter apurado, julgado e condenado àqueles que nos roubaram a liberdade nos anos 60 e nos torturaram e mataram. Mas não. Permitimos que continuassem livres e no poder; deixamos que se aliassem à velha mídia e ao grande capital para produzirem mais pobres e miseráveis, para que nos comandassem as mentes e nos conduzissem ao teatro para que assistir a uma orquestra que não sabe tocar, para ouvir a música que não gostamos de ouvir, para nos fazer conviver com o cinismo da Democracia e da Liberdade individual que nunca existiu!

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Por uma questão de coerência, por ter tomado a decisão assim que Dilma Rousseff foi destituída, passei a grafar o nome "michel temer" com as iniciais Minúsculas, como ele.

1 de jan de 2017

O PIRATA VOLTOU

Hora de voltar a esse canal.

As redes sociais, principalmente o Facebook, tornaram-se veículos de libertação de ódios, de oportunidades de escrever sem pensar. São ofensas de todos os tipos, raciais, misóginas, homofóbicas e políticas feitas por pessoas que, por trás de uma máquina, no silêncio de um aposento, se permitem dizer coisas que não teriam coragem se estivessem frente a frente com quem ofendem.

Volto a usar este blog como meio de resistência e exposição de pontos de vista que podem servir para reflexão. Pode servir para alguma coisa, para alguém; aqui é possível ser menos econômico nas palavras e o debate, desde que honesto, pode ser travado da mesma forma.

O pirata voltou.

13 de mai de 2014

AS CÓLICAS DE JOAQUIM

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A dor forte fez o pesado corpo arquear; a musculatura da face contraiu-lhe as feições e a expressão tornou-se ainda mais rude.

Como se possuísse um útero, uma hystera, sentiu que ia parir. Correu para a cozinha de seu apartamento funcional. Bebeu, da torneira da pia, goles de água com gosto de cloro; ergueu a cabeça para o alto querendo facilitar a passagem da água pela traqueia.

Parir pela boca? Não! Engoliu saliva repetidas vezes pensando unicamente em controlar a dor até, finalmente, acalmar suas entranhas. O esforço cansou-lhe as pernas mas conseguiu arrastar-se até a sala; sentou-se à poltrona diante da enorme janela que dava para o pátio onde, em sonhos recorrentes, via a multidão aclamá-lo como Rei!

Adormeceu. Era tarde da noite e o silêncio o dominou. Tanto gostava daquele sonho que esperava poder repeti-lo. O povo em êxtase a gritar-lhe o nome ... costumava acordar mais feliz, leve; dava-lhe ânimo para voltar ao trabalho e seguir adiante em sua missão que considerava nobre.

Mas naquela noite não sonhou. A ebulição em seu abdômen disforme recomeçou enquanto roncava; o gosto amargo na boca, a falta de ar e o suor que escorreu por seu pescoço fizeram-no despertar. As cólicas, agora, eram ainda mais fortes. Aquilo que lhe servia de útero pulsava freneticamente no ritmo de seu coração: vou explodir, pensou!

Ao tentar levantar e correr, escorregou. Os braços quiseram apoiar o peso de seu corpo mas, sem resistência, cederam e sua cara bateu forte no carpete de 10 milímetros na cor marfim. Perdia o controle, começava a expulsar o ser que ele aprisionara com tanto esforço, com tanto senso de dever cumprido, como em resposta à multidão de seus sonhos.

Por impulso, a boca abriu-se e um líquido quente e viscoso começava a ser expelido. Preciso engolir, preciso engolir, pensou, mas não havia mais o que pudesse conter sua presa.
Então ele pariu manchando de líquidos e sangue o carpete. Sua garganta parecia rasgar, a dor intensa o fez desfalecer durante o parto, perdeu os sentidos por não mais que dois minutos, a tempo de ver José Dirceu estatelado no chão sujo, nú, olhos arregalados de terror.

Recobrou as forças rapidamente. De um salto, ergueu o corpo do chão e, sem pensar duas vezes, tomou a criatura imunda em suas mãos e abriu a boca para voltar a engolir seu monstro. Teve dificuldade, é certo, mas era a única coisa a fazer no momento. Ainda estava quente e viscoso. Engoliu e aprisionou novamente em suas entranhas aquela aberração que só ele era capaz de dominar e prender.

Amanheceu e ele, depois de limpar o chão da sala e mesmo com o incômodo que sentia, foi trabalhar. Tinha esperança de que aquilo nunca mais voltasse a acontecer.


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3 de mai de 2014

CONSEQUÊNCIAS ÓBVIAS DO RETROCESSO.



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Se a corrida ao Planalto começou – e começou mesmo! – as correntes de oposição passam a enviar recados cada vez mais claros à sociedade e ao mercado. À sociedade, visando apoio eleitoral na urna; aos mercados, buscando financiamento para as campanhas.

O MENINO DO RIO, por exemplo, já disse que deverá tomar “medidas impopulares” se vencer. Seu guru financeiro Arminio Fraga emitiu alguns sinais de quais poderão ser estas medidas: controle do gasto público e contenção dos salários.

Já o BONITÃO DO AGRESTE, que vem colado na popularidade da FADA DA FLORESTA, sem ter onde amarrar seu jegue, disse através da boca de seu auxiliar Eduardo Gianetti da Fonseca que seu programa de governo não trará diferença relevante em relação ao programa tucano. Portanto, o mesmo método será usado para formular a política de governo se os socialistas vencerem.

O discurso de ambos deixa clara a mudança no rumo da economia caso Dilma não seja reeleita. Ou seja, a volta ao passado, o retrocesso aos tempos do FMI, dos altos juros, do alto desemprego e, principalmente, da concentração de renda.

Na essência, trata-se de um modelo esgotado. A crise mundial de 2008, que se arrasta até hoje, exigiu maior interferência do Estado na economia, exatamente como foi feito nos governos Lula e Dilma. Investimento público para geração de emprego e renda. Não é por outra razão que somos um dos países com maior empregabilidade e distribuição de renda.

Aliás, a tal distribuição de renda, motor da redução da desigualdade social, é responsável pela baixa suscetibilidade aos danos causados pela crise mundial. Enquanto países da Europa e mesmo os EUA empobrecem, China, India Brasil, Russia e África do Sul sentem pouco as turbulências no quesito bem estar social.

Mas, qual a razão dos candidatos da oposição irem buscar esta fórmula tão perversa para a população?
Simples. Ao frear os salários, aumentar a taxa de juros, reduzir drasticamente o investimento do Estado e sua influência na economia, diminuem o PIB mas mantém o instrumento base da concentração de renda: o monstro chamado SUPERÁVIT PRIMÁRIO.

O que nada mais é que economizar um determinado valor para pagar os juros da rolagem da dívida, e deixar por conta dos agentes do mercado os rumos da economia. Todos nós sabemos que o mercado sempre se protege, reajusta preços, faz cartel, suborna, atua como proprietário das leis que jura proteger, mas manipula. O mercado é o grande responsável pelo empobrecimento da Europa e dos EUA, que joga com o capital especulativo em detrimento das famílias que reduzem, a cada dia, seu padrão de vida.

A classe média norteamericana já está mais pobre que a classe média europeia, e este círculo vicioso leva ao caos social. Desemprego e sofrimento.

Em 2002 Lula foi eleito para implementar programas sociais de apoio às famílias. Dilma os ampliou. Trouxemos para o consumo milhões de pessoas que hoje ascenderam de classe e são justamente estas pessoas que movem a economia atual.

Se o modelo do retrocesso vencer, as consequências são absolutamente desastrosas e previsíveis. Basta ver o que aconteceu no Primeiro Mundo quando o Estado se retirou da vida das pessoas.

Para aqueles que estão do lado do Estado Mínimo, recomendo estudarem as medidas que os governos dos países desenvolvidos adotaram para tentar superar a crise. Interferência direta na economia injetando bilhões, até trilhões, de dólares para tentar frear o descontrole. Aumento de gasto e endividamento público.

Se é para concentrar renda, o caminho é votar na oposição.

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30 de mar de 2014

1964: A FARSA DA COBERTURA 50 ANOS DEPOIS



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Quem lê a cobertura que a mídia corporativa faz do Golpe de Estado de 1964 e não viveu aquela época, ou não estudou a história do Brasil, verá uma distorção dos fatos. Até mesmo certos blogueiros ditos progressistas parecem ter esquecido o que se passou na véspera do golpe. Não se conta a verdadeira sequência dos fatos.

O golpe começou na renúncia de Jânio da Silva Quadros, um político carismático eleito ao encampar a bandeira da moralidade – a vassourinha, para limpar a política, era seu símbolo de campanha. Seu vice, eleito em chapa independente, foi João Goulart, ou Jango.

Em Agosto de 1961, Jânio divulga a carta dizendo-se vencido após sete meses de governo. Amparou sua renúncia na impossibilidade de seguir na presidência sem o apoio para varrer a corrupção, a mentira e a covardia. Anos mais tarde, assumiu ser um blefe e, segundo historiadores, foi uma tentativa de autogolpe.
Seu vice, João Goulart, havia sido enviado a China em missão oficial e sua volta ao Brasil teve que ser negociada com a UDN de Carlos Lacerda, ex-aliado de Jânio e líder da direita.
Lacerda e o ex-presidente Juscelino Kubitschek eram os mais cotados à eventual sucessão de Jango, caso houvesse eleições presidenciais que pudessem acalmar os ânimos pós-renúncia.

Três anos e meio depois, os militares tomam o governo pela via da força.

Basta traçar uma sequência histórica para perceber que desde a queda de Jânio estava sendo preparado o golpe. Talvez o golpe que o próprio Jânio Quadros estivesse tramando; sua popularidade credenciava-o a, possivelmente, fazer exigências que seus apoiadores não aceitaram. Ele acenava à direita e à esquerda, agradava os dois lados e buscava benefícios políticos de quem estivesse ao seu alcance.  
Este período histórico talvez nunca seja esclarecido devidamente.

Com a Guerra Fria no auge das (más) relações internacionais, sendo o Brasil um país estratégico para as pretensões do capitalismo; com a inteligência norteamericana funcionando a todo vapor, a CIA infiltrada em todos os governos latinoamericanos temendo a influência de Cuba e URSS, pode-se perfeitamente supor que forças civis locais deram respaldo e inflamaram lideranças militares para a tomada de poder. Com apoio financeiro e logístico da CIA, é claro! E com apoio da imprensa brasileira e ocidental, sem a menor dúvida!
Recentemente, documentos de 1961/2 revelaram atuação de John Fitzgerald Kennedy, presidente dos EUA, na política brasileira no sentido de interferir no curso do fortalecimento do capitalismo tupiniquim. Kennedy foi assassinado em Novembro de 1963, seis meses antes do golpe no Brasil!

Portanto, é cinismo dizer que os militares derrubaram o governo legítimo de João Goulart por conta própria, impulsionados pela Marcha da Família com Deus e pela insatisfação da classe média diante do temor do comunismo.

O golpe foi tramado pela classe empresarial do Brasil, financiado com dinheiro dos EUA, organizado minuciosamente por lideranças importantes, inclusive, da Igreja.
Não se pode culpar exclusivamente os militares – e esta afirmação não serve para eximi-los da culpa, ao contrário – pela afronta à democracia sem incluir nomes  que até hoje estão presentes na vida política nacional! E a imprensa, que acobertou os reais interesses norteamericanos na ruptura dos direitos civis para sacar benefícios econômicos e políticos.

Portanto, quando seres repugnantes afirmam que o momento político pré-golpe era de “impossível solução”, ou que a “situação política tinha deteriorado muito”, contribuem, apenas, para a manutenção da farsa que entrou para a história como um golpe meramente militar!
MENTIRA!

As citações entre aspas acima são de um sujeito que viveu o golpe, dizia-se de esquerda, atuou, ou diz ter atuado, na luta da redemocratização dos anos 80: o infeliz chama-se Fernando Henrique Cardoso.

Quantos governadores e prefeitos biônicos não são ativos na vida política de hoje? Quantos dos que colaboraram na articulação do golpe, com apoio financeiro, logístico e político, não estão no Congresso Nacional em 2014? Quantos jornalistas e donos de empresas de comunicação que hoje posam de democratas mas, até pouco tempo, ainda tratavam o golpe com revolução, ainda são poderosos formadores de opinião? Quantas empresas, bancos e indústrias, cresceram e se fortaleceram com dinheiro público entre 64 e 85 e, ainda assim, figuram como modelo de sucesso?

FHC, o hipócrita, teve a coragem de afirmar que “ninguém sabia de onde viria o golpe”.
Sabia, sim. Ele pode negar que soubesse, talvez até não tivesse, à época, estas informações. Mas hoje é impossível acreditar que a esquerda – com Cuba, China e URSS – tivesse um plano em andamento para levar o Brasil ao comunismo.
É inimaginável que um bando de generais e coronéis militares tivesse capacidade política de articular a tomada de poder sem o apoio da elite brasileira e dos meios de comunicação.
A prova foi a reação descoordenada que a resistência opôs ao golpe, sem organização, recursos, efetivo paramilitar e, até, liderança. Somente após 68 é que a militância comunista, finalmente, se organizou. E perdeu.

Desta forma, quando se fala dos 50 anos do golpe no Brasil é preciso incluir na lista de criminosos todos aqueles que dele participaram: militares, empresários, políticos, jornalistas, igreja, lideranças organizadas da sociedade civil: todos são igualmente responsáveis pelas torturas e mortes que se sucederam à ação ilegal por eles patrocinada.


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18 de mar de 2014

A QUEM SERVE O JUDICIÁRIO, AFINAL?

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Por definição, o Poder Judiciário é aquele que regula os conflitos baseado na lei em vigor. Nas democracias modernas, serve para “garantir os direitos individuais, coletivos e sociais”, olhando exclusivamente para o texto constitucional vigente.

Pouco importa como pensa um juiz de primeira, segunda ou última instância: seu dever, enquanto funcionário público que vive dos impostos recolhidos do cidadão é emitir pareceres a respeito de conflitos baseados apenas e exclusivamente na lei.

Como ser humano, um juiz também comete erros. Aliás, é por esta razão que surgiu o advento da dupla instância de julgamento, para corrigir eventuais equívocos que se cometem ao longo de um processo judicial. Os recursos judiciais são sempre analisados por magistrados mais experientes e, supõe-se, isentos.

O que acontece no Brasil de hoje, diante da popularização de alguns membros do Judiciário, sobretudo do Supremo Tribunal Federal, são distorções graves na interpretação de leis ou, diante dos holofotes que parte da imprensa acende sobre certos personagens do STF, tietando vergonhosamente uns e outros; certos juízes ultrapassam os limites que a Constituição lhes confere. De julgadores, tornaram-se produtores de sentenças! Suas decisões, em alguns casos, levam mais em conta a vontade individual de um único juiz que o texto legal.

É o caso da AP470.
No início, durante a análise da denúncia que o Procurador Geral, Dr Gurgel, ofereceu, a defesa dos réus pediu o desmembramento do processo para instâncias inferiores. Exatamente como garante a Lei, exatamente como fizeram os advogados dos réus da Ação Penal contra Eduardo Azeredo no mensalão tucano, então aceita sem qualquer discussão.

O relator, Mister Barbosa, aceitou no caso tucano mas rejeitou no caso petista: alegou que o processo dos réus petistas incluía a denúncia por formação de quadrilha e que toda a “quadrilha” deveria ser julgada numa única ação. Foi assim que se descumpriu a Lei; ao julgar civis sem foro privilegiado retirou o direito básico de defesa dos acusados!

E agora, Mister Barbosa, que o crime de formação de quadrilha foi definido improcedente, transitado em julgado, sem mais direito a apelações, como fica todo o processo?
Se na origem da AP470 houve um argumento desmontado no final e se, inexistindo a “quadrilha” a que se referiu o relator, não há mais razão para ter mantido a ação no STF, os réus condenados sem direito a segunda análise seguirão condenados mesmo tendo perdido o direito à defesa?

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