30 de jun de 2012

O que a midia quer do Mercosul?

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Hoje pela manhã, o Presidente Hugo Chavez me telefonou para saber quais as razões da midia latinoamericana criticar tanto a entrada na Venezuela no Mercosul.

Primeiro, reclamei por causa do horário. Ele se desculpou mas, já que me acordou, engrenamos no assunto.

Disse a ele o que já sabemos há muito tempo, ele mais que ninguém, que os controladores da opinião na América Latina não admitem o sucesso de determinados governos. Ele riu alto! Resmunguei dizendo não ter entendido a piada. Chavez sugeriu, então, que eu lavasse o rosto e fosse tomar café para, em seguida, ligar de volta ... não era essa a resposta que ele queria ouvir de mim.

Neguei o pedido. Não vou gastar uma ligação internacional para a Venezuela e pedi, num tom chateado, para que explicasse o que queria saber.

Ao compreender o mal estar, foi direto ao ponto.
A imprensa nunca se preocupou com os assuntos do Mercosul. Desde sua criação, foram céticos; achavam que a ALCA era o melhor caminho para a integração dos hermanos do Hemisfério Sul. Quando nossos países se recusaram a fazer parte da sociedade com os EUA aí então é que a midia virou as costas para tudo o que se relacionava ao nosso Tratado de Livre Comércio. Por que então, agora, voltam a falar de algo que sempre fizeram questão de ignorar?

Não soube responder.
Ele continuou:
Se estavam felizes com o bloqueio à entrada da Venezuela no Mercosul por achar que o país não respeita as regras da democracia, deveriam, pelo menos, noticiar com mais vigor o rompimento da democracia no Paraguay. Mas fazem exatamente o oposto: defendem o ataque contra o Presidente deposto Fernando Lugo e escondem o ato golpista que o retirou do poder. E escrevem contra a Venezuela mais uma vez.

Num desabafo, Hugo Chavez ainda me lembrou de todos os plebiscitos que organizou e de todas as eleições que venceu. Fez questão de me dizer que os observadores norteamericanos sempre acompanharam os pleitos e que, caso houvesse qualquer indício de fraude, eles o denunciariam.
Quase gritando, relembrou do golpe que a direita venezuelana preparou contra ele; foi deposto mas voltou ao poder nos braços do povo ... ele fica bastante chateado quando toca neste assunto.

Se eles dizem entender de democracia -  e fazem até a guerra por ela - deveriam condenar o golpe contra Lugo, encerrou.

Tem razão, concordei. A imprensa oposicionista de nossos países - e da Argentina, Equador e Bolivia - não tem argumentos. Amparam-se na Constituição do Paraguay para justificar o golpe e ignoram as leis da Venezuela que admitem a eleição continuada de seu lider.

A democracia não é um boneco  nas mãos imundas da velha imprensa para ser manipulada assim, disse Hugo Chavez antes de me desejar um bom dia e desligar o telefone.

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14 de jun de 2012

VIDA E OBRA DE CHARLES CASCATA

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Num local muito, muito distante, no Reino de Saiog, nasceu um menino chamado Charles Cascata, filho de Dona Maria José. Mulher simples, mas honrada, criou o filho como podia; a vida na região do Burgo de Ainaiog, capital do Reino de Saiog, nunca foi fácil.

Desde pequeno Charles preocupava a mãe com as molecagens que fazia. Na escola infantil, roubava lápis e canetas dos coleguinhas; mentia para a professora ao fingir estar doente para justificar as faltas. Costumava pular o muro da escola para ir jogar futebol na rua com os vizinhos do Burgo de Ainaiog. Ele havia roubado uma bola na feira e, porisso, tinha o privilégio de escolher os melhores jogadores para seu time.

Adolescente, Charles passou a roubar galinhas e porcos. Não satisfeito, surrupiava cavalos e carruagens. Depois, baús com joias. Envolveu-se com o jogo ilegal de dados e fez muitos amigos no mundo do crime. Falsificava os boletins da escola para que sua mãe não soubesse de suas notas baixas. Formou sua quadrilha de bandidos aos 16 anos de idade, com uma turma barra pesada.

Aos 21 anos, já era temido nas ruas de Ainaiog. Sua rede de poder era composta por membros  influentes do Burgo. Apesar de plebeu, Cascata tinha fortes relações com nobres do Reino de Saiog e conhecia o ponto fraco de todos eles: Moedas de Ouro!

Fez de Demócrito Bispo, princeps senatus, seu representante no Senatum. Demócrito fazia discursos acalorados e acusatórios contra os membros do Reino de Saiog que não o apoiavam. Aos olhos do povo, era considerado herói e honesto. Admirava a forma inteligente e sagaz de cascata conseguir tudo o que queria.

Jumar Sandes era o judex supremus de Saiog. Membro da Alta Corte de Conselheiros do Rei e renomado defensor da justiça, Sandes era a base legal para impedir que o jogo de dados fosse denunciado pelos guardiões do Reino. Mantinha relações estreitas com Cascata, sempre às escondidas para não levantar suspeitas entre os demais nobres. Uma ocasião, a pedido de Cascata, mandou soltar o poderoso banqueiro Duncan Donuts aprisionado pelos guardiões. Por duas vezes, desceu à masmorra para fazer cumprir sua ordem. Era duro com seus inimigos mas dócil com os amigos.

Com o proconsul governatorius do Reino de Saiog, Otoni Cirillo, cuja influência era grande na região, tinha mais intimidade. Frequentava sua casa, estava presente nas refeições com outros membros da família Cirillo e, nas festas, fazia-se se passar por nobre. Comprou a casa de Cirillo numa operação fraudulenta que envolveu a soma de 14 moedas. Era visto frequentemente deglutindo assados e bebendo vinho, rodeado de mulheres e serviçais na casa que pertencera a Otoni Cirillo.

Com a ajuda dos nobres, Cascata fundou a Beta Construtorium, ferramentaria que se dedicava ao ramo da construção de casas no vilarejo de Ainaiog e, logo, passou a construir obras para o Reino. Claro, a preços muito mais elevados, tudo em comum acordo ao proconsul governatorius Cirillo. Assim, suas riquezas aumentavam e, com ela, seu poder.

Mas também estava às voltas com gente do povo, plebeus como ele, pessoas sem caráter e ambiciosas que Cascata sabia controlar.

Aliou-se a Idelbório Matoso, conhecido como Dedé, ex guardião do Reino, cuja audição era sua maior virtude; costumava se espreitar pelos corredores dos Palácios para ouvir conversas dos inimigos. Era rude e cruel, usava suas habilidades para chantagear qualquer pessoa que pudesse lhe render algumas moedas.

Para garantir que sua imagem não fosse manchada pelos malfeitos que fazia, Cascata usou a influência de Jumar Sandes, o defensor da justiça, para se tornar amigo do responsável pela  Vigiatum, uma espécie de informe escrito em pergaminho distribuído por todo o Reino, que gozava de certo prestígio até então. Metacarpo Filho era o diretor da sucursal Saiog da Vigiatum, quem ditava as regras e escolhia o que seria ou não escrito.

Costumava se encontrar com Cascata antes de mandar pregar os pergaminhos nos postes do Reino para saber o que deveria escrever. Era comum combinarem denúncias contra aqueles que não faziam parte da turma, inventavam mentiras e calúnias e, quando a notícia se espalhava pelos Burgos, o princeps senatus Demócrito subia à tribuna do Senatum para acusar os desafetos de Cascata.

Um perfeito teatro dramático.

Assim, com a ajuda de todas as pessoas de sua rede, Cascata esteve prestes a se tornar a pessoa mais importante do Reino de Saiog. Com as moedas que provinham do jogo ilegal de dados, pagava muito bem seus colaboradores, comprando sua fidelidade e silêncio. Era como se todas as portas se abrissem para Cascata e só ele pudesse escolher quem passaria por elas.

Todo este poder o fez perder a noção dos riscos que corria. Com o passar do tempo, os guardiões começaram a desconfiar que Cascata estava envolvido com gente perigosa e começaram a segui-lo. Por todo o Reino espalharam guardiões para ouvir o que se tramava atrás das portas dos castelos. 

O guardião Protóbius Quiroga, cujo raciocínio lógico era exemplar, denunciou Charles Cascata e toda a quadrilha ao Rei de Saiog assim que tomou conhecimento dos conchavos, subornos e atos de corrupção que Cascata operava.

Assim, deu-se a limpeza dos criminosos. Recolhidos à masmorra, todos eles foram condenados a prisão com trabalhos forçados.

Charles Cascata, Metacarpo Filho e Idalbório Matoso, plebeus, compartilham a mesma cela e passam os dias trabalhando na reforma das pontes elevadiças do Reino. Nos momentos de descanço, jogam dados e fazem apostas.

Demócrito Bispo foi mandado para um Burgo longínquo a mando do Rei. Trabalha na colheita de batatas e, enquanto as recolhe, recita os discursos que costumava fazer na tribuna do Senatum.

Jumar Sandes recusou-se a trabalhar, porisso o deixaram acorrentado pelas mãos e sobrevive a pão e água. Por causa do castigo, sua saúde está ficando frágil. Adora ofender os guardiões que lhe trazem comida; nem mesmo sua posição de condenado reduziu-lhe a arrogância.

Otoni Cirillo conseguiu perdão do Rei, mas teve o título de nobreza cassado e vive pelas ruas como mendigo. Há quem jura tê-lo visto andando com bêbados e roubando galinhas.

A Vigiatum deixou de ser distribuída e ninguém no Reino de Saiog sente falta.

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13 de jun de 2012

O BOLSA-BANCO

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A dimensão da crise financeira na Espanha está deixando muita gente de cabelo em pé.
Com sua origem nos Estados Unidos em 2008, o furacão econômico já passou pela Irlanda, Portugal e Grécia, permanece rondando as noites - e os dias - dos investidores ao redor do mundo.

Não podemos esquecer que Barack Hussein Obama derramou mais de 1 trilhão de dólares na economia estadunidense assim que assumiu a Presidência. O objetivo era sanear o sistema bancário falido!

Não saneou.
Pior, gerou uma onda de insegurança tal que, no mundo globalizado, se espalhou contaminando todos os mercados. Até a China, que acusou o golpe da crise ao reduzir a meta de crescimento para 2.012.

O Fundo de Estabilização Europeu, criado com o objetivo de manter reservas preventivas para controlar o Euro, possui, hoje, algo em torno de 500 bilhões de Euros. É uma espécie de FMI caseiro, para conter as crises da zona do Euro.

Ao anunciar a liberação de 100 bilhões de Euros para saneamento dos bancos espanhóis, ontem, deu algum alívio ao mercado. Mas não durou. No dia seguinte, os investidores voltaram a exigir taxas de juros cada vez maiores da Espanha, fechando, ontem, em 6,7% ao ano. Uma monstruosidade!

O erro na conduta da solução da crise está na origem. Dificilmente será resolvido o problema financeiro mundial enquanto os bancos mantiverem total controle sobre a circulação de moeda no mundo, e não apenas da moeda, mas, sobretudo, nos títulos das dívidas dos governos dos países ocidentais!

O BOLSA-BANCO, instrumento inventado pelos gênios capitalistas de Harvard, só provoca adiamento provisório da crise, que volta revigorada e cada vez mais sedenta de recursos.

Banco privado é como o urso, um predador que come de tudo e se adapta para digerir todo tipo de alimento.

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Já li tantas críticas ao Bolsa-Família que já nem me interesso mais em defender o programa criado pelo PT. De nada serve falar de seus benefícios para aqueles que partem do principio de que pobre não merece ajuda. É pura perda de tempo.

Mas, diante do sucessivo fracasso nas tentativas de resolver a crise nos países ricos; vendo que as medidas são sempre as mesmas, ou seja, ajuda incondicional aos bancos privados sem qualquer contrapartida, me pergunto se nunca passou pelas cabeças dos gestores capitalistas americanos e europeus que seria muito mais produtivo repassar recursos para geração de emprego!

Se a Espanha, por exemplo, cuja taxa de desemprego está na casa dos 25% - sendo mais de 40% entre os mais jovens - investisse os recursos visando criar postos de trabalho, a solução poderia estar mais próxima e com custos sociais muito menores.

É de espantar a forma de raciocínio imbecil de colocar dinheiro na boca do urso enquanto a população caminha a passos rápidos para o declínio social, moral e econômico!

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11 de jun de 2012

O STF E AS SAÚVAS


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Macunaíma, o herói sem caráter de Mario de Andrade, disse que “pouca saúde e muita saúva, os males do Brasil são”. Isso foi em 1928, quando foi lançado o livro e o personagem.

De lá para cá, as saúvas já não representam mais tanto perigo, e os males do Brasil são outros.

Da segunda metade do século passado em diante, forças dominantes apoiadas pela mídia corporativa trataram de desconstruir a imagem dos políticos brasileiros. Desde Juscelino Kubitschek, tanto Executivo quanto Legislativo foram alvo de investidas pesadas no sentido de colocar todos no mesmo balaio: político é ladrão!, repete, insistentemente, o velho jornalismo comprometido com o atraso. Daí, o golpe militar de 64.

A instituição que parece ter sobrevivido até aqui, foi o Judiciário. Um ou outro fato pouco relevante, de juízes corruptos, de sentenças vendidas, foi noticiado sem alarde, com o devido respeito à classe de magistrados que atuam para garantir o cumprimento da Constituição. A mais alta corte do país, o Supremo Tribunal Federal, nunca foi alvo de denúncias e suas resoluções sempre foram respeitadas.

Hoje, entretanto, o STF colocou-se numa posição prá lá de inconveniente.

O julgamento do “mensalão”, previsto para agosto, pode ser o marco da derrota da Justiça, seja qual for a decisão. O risco é enorme; a falta de garantias de que a lei será respeitada pode levar ao colapso o tribunal se nada for feito.

O processo é político, e cada membro do STF tem sua preferência partidária. Não podem negar. Ao mesmo tempo, a isenção deve ser total; a análise de cada um dos processos dos réus deve ser cuidadosa e baseada, exclusivamente, nas provas produzidas pelo inquérito. É assim que deve proceder o julgador. Sem pressão e sem pressa.

O alvo da oposição, neste processo, é o ex-Ministro da Casa Civil José Dirceu. São 36 réus, mas apenas um nome é o que aparece com frequência na mídia. O operador, o chefe, o articulador. Os demais, os jornalistas demonstram pouco ou nenhum interesse.

E é ai que está o grande nó: se Dirceu for inocentado, a oposição e a imprensa reacionária dirão que o governo exerceu pressão sobre os Juizes. Se, por outro lado, for condenado, o governo dirá que a pressão partiu da oposição e da manipulação da imprensa corporativa que influenciou os magistrados.

Não haverá meio termo; a imagem do STF sairá abalada qualquer que seja a decisão.

O risco de se formar uma divisão clara na sociedade existe, e nada foi feito pelos Ministros do STF para frear a onda de especulações sobre o julgamento. Pelo contrário, a exposição de certos membros do Supremo na TV provoca ainda mais a sensação de comprometimento de quem vai julgar!

Não haverá recurso da decisão; o STF deve refletir com muita calma sobre as consequências que irão provocar. O resultado não será unânime, com certeza, e vai gerar ainda mais desconforto para as partes que não vislumbrarem que foi feita a devida justiça.

A única solução será basear o andamento dos processos nas provas, nos documentos reais e nas denúncias comprovadas, se é que existem. Caso contrário, a desmoralização pode ser irremediável.

Ninguém quer Macunaímas vestindo toga!
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Um dos maiores interessados no julgamento é o próprio ex-Ministro José Dirceu.

Já declarou inúmeras vezes que aguarda, ansioso, pelo momento de se defender. Até agora, não obteve sucesso para expor suas razões à opinião pública, pois os meios de comunicação nunca pretenderam dar-lhe espaço.
Dirceu insiste que não há provas de que se montou um esquema de compra de votos no Planalto para aprovar medidas de interesse do governo Lula. É tão categórico ao afirmar sua inocência que sua postura incomoda seus opositores.

Até Roberto Jefferson, que criou o termo "mensalão" já afirmou que nunca existiu o pagamento mensal de propina a deputados.

Quanto ao risco de prescrição dos “crimes”, tão comentado pela imprensa, é de estranhar que não cobrem a mesma velocidade do STF para julgar o “mensalão” do PSDB, anterior ao do PT. 

Se é lei que exigem, deveriam ser mais honestos.


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