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Ao ler a notícia da morte de Hugo Chávez, ontem, foi difícil
não remeter a lembrança a Fidel Castro. Duas lideranças políticas das mais
relevantes na América Latina, um doente e outro, idoso e já debilitado.
O desdobramento da perda de Chávez será determinante para o
futuro da Venezuela, assim como será Cuba sem Castro. Ambas as Pátrias estão em
oposição aos EUA e a eficácia da influência norteamericana em Caracas daqui por
diante poderá revelar, de modo inequívoco, qual será a atitude do governo da
maior potência econômica e militar do mundo em relação a seus oponentes do
hemisfério sul.
A economia venezuelana está fortemente atrelada à produção e
exportação de petróleo. Por volta de 90% de suas exportações está ligada a esta
atividade, logo, seu PIB é ultradependente. Esta é a razão que liga fortemente
os EUA a Venezuela. Um precisa do outro. Entretanto, assim que Hugo Chávez passou
a controlar a exploração e a comercialização do petróleo, nasceu um ódio recíproco.
Chávez, em discurso na ONU, fez o sinal da cruz ao mencionar o nome de George
W. Bush e disse que sentia cheiro de enxofre! Em pleno território americano!
A Venezuela estatizou a exploração e distribuição de sua
maior riqueza e dezenas de empresas norteamericanas deixaram o país. A partir de Chávez, criou-se
uma política de apoio aos países mais pobres do Caribe com a venda de petróleo
a preços subsidiados. Hoje, a América Central gasta 19% de seu PIB em compra de
petróleo da Venezuela! Chávez incomodava muito aos irmãos do norte.
O uso político do petróleo, com o investimento da renda
gerada em melhorias sociais, provocou ações de desestabilização do governo
democrático da Venezuela, por parte dos EUA, a ponto de agentes dos EUA
promoverem um golpe de Estado contra Chávez, conforme revelaram documentos vazados
pelo WikiLeaks. Em Abril de 2002, o empresário Pedro Carmona, sob coordenação
de Washington e com auxilio de parte da mídia, partidos de oposição e militares
rebeldes, se autonomeou Presidente da Venezuela e depôs o Presidente eleito.
Pouco depois, diante da pressão popular, Carmona renunciou e Chávez voltou ao
poder. A oposição venezuelana nunca descansou; o objetivo sempre foi
desacreditar El Comandante na mídia ocidental – no Brasil, os grandes meios de
comunicação sempre trataram Chávez como populista, ditador, caudilho, antidemocrático,
louco, etc. – com o claro objetivo de sacá-lo do poder.
É preciso lembrar, nesta altura do post, que todas as eleições
vencidas por Chávez foram legítimas e democráticas; observadores
internacionais, da OEA, inclusive, estiveram presentes em todas elas e nunca
puderam constatar fraudes. Ainda, não podemos esquecer que, diante da pressão
exercida pelos EUA e pela oposição local, em 2004, Hugo Chávez lançou um Referendum para reafirmar sua liderança
como chefe de Estado e de Governo. Venceu com 59% dos votos. Portanto, taxá-lo
de ditador nada mais é que querer
combater suas ideias através de mentiras.
Todo tipo de acusações foram feitas a Hugo Chávez, nenhuma
com consistência o suficiente para fazê-lo perder eleições. O povo venezuelano
o adora, é fácil constatar. Seus detratores nunca aceitaram as reformas
constitucionais promovidas por seu governo bolivariano – aumento dos direitos
dos antes marginalizados, criação dos Conselhos Comunais e das cooperativas de
trabalhadores, implementação das Missões Bolivarianas (ações de justiça e bem
estar social, luta contra a pobreza, melhoria do sistema educacional e militar,
etc.), reforma agrária, etc..
Pois bem, hoje a Venezuela chora seu líder. A oposição
venezuelana começa a mostrar os dentes. Henrique Capriles, o opositor derrotado
nas últimas eleições presidenciais, que estava em Miami ontem (em Miami ....)
já declarou que o momento é de calma e que o país deve respeitar a dor. Mas, é
claro, já se lançou candidato para as eleições presidenciais de emergência
convocadas para daqui a 30 dias, conforme prevê a Constituição. O candidato da
situação será Nicolás Maduro, atual Vice-Presidente.
A previsão é de vitória de Maduro, herdeiro político de
Chávez, diante de um quadro de comoção social.
Mas, e quando Fidel Castro morrer?
Se Chávez era um inimigo comercial dos EUA, Fidel é o maior
inimigo político dos norteamericanos desde os anos 60 do século passado. Uma
ilha que tentaram invadir sem sucesso, onde promovem – até hoje – ações de
tentativas ilegais de desestabilização do governo local, até planos de atentado
a morte contra os Castro. Tudo vazado pelo WikiLeaks através de documentos
oficiais.
A “democracia” que os EUA pretendem exportar não tem limites
e muito menos respeito pelos povos onde intrometem seu nariz. Quando invadem
uma Nação para impor seu modelo à força, tudo o que conseguem é matar
sumariamente todos os que se colocam contra sua vontade! E, pior, não conseguem
instalar o regime de governo que pretendem e jogam suas vítimas em infindáveis
guerras sangrentas. Não foi assim no Afeganistão e no Iraque? Na Coréia e no
Vietnã? Não é por esta razão que o soldado americano Bradley Manning está preso
há mais de mil dias sem julgamento, pelas imagens do frio assassinato de
inocentes no Iraque? Qual o nome da “democracia” que permite uma base militar
em Guantánamo?
Em Cuba, país que sofre há mais de 50 anos com um bloqueio comercial
desumano, será o ponto de honra da política externa do Presidente de plantão
tão logo seja anunciada a morte de Fidel Castro. Já deve estar em curso um
plano de ação para que a ilha seja inundada por propaganda norteamericana.
Passarão por sobre os cubanos como um trator?
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