21 de mai de 2017

ORQUESTRA GOLPISTA


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No final do primeiro mandato de Dilma Rousseff, a taxa de desemprego era inferior a 5%. Vínhamos de um período de crescimento como nunca visto antes. Algumas medidas econômicas eram necessárias devido à perda de fôlego do PIB, por isso, as medidas propostas tão logo vencemos as eleições de 2014.
O que se passou a seguir todos conhecemos: Eduardo Cunha, pautas-bomba, boicote no Congresso Nacional e na mídia, em especial na Rede Globo, as ações no TSE pela recontagem de votos, o choro de Aécio e o financiamento de supostas entidades populares que mobilizaram parcela da classe média, com super cobertura da imprensa, na esteira dos protestos de 2013.
Como numa orquestra, cada músico assumiu seu papel de forma a executar a melodia do impeachment. Uns, solistas, tocavam no momento certo enquanto outros, coadjuvantes, harmonizavam a música para que soasse perfeita.
Tudo sob o comando do maestro, do regente, cuja responsabilidade foi unir todos os instrumentos para que tocassem a mesma partitura, para que o resultado fosse apoteótico.
Mas não foi exatamente isso que aconteceu. Ao que parece, ainda ecoam trechos de notas musicais emitidas por solistas e coadjuvantes, soltos, fora do tom e do ritmo, sem que o maestro consiga contê-los ou, pelo menos, colocá-los na mesma sinfonia.

Desde o início do golpe tenho a sensação de que o maestro é um profundo conhecedor do marketing social e político. Minha desconfiança é de que seja alguém do mercado, da mídia, da TV; alguém que saiba compor um enredo de novela, uma trama com chamadas para o intervalo que deixam uma expectativa para o próximo capítulo. Quem entende de comportamento econômico e, com absoluta confiança, é capaz de unir forças no mercado financeiro para alcançar seus objetivos.
Cada um imagine quem quiser, mas é certo que houve um comando.

Por partes.
A Lava Jato e suas operações.
Teoricamente, o Ministério Público Federal do PR preparava as investigações e as submetia ao Juiz Sérgio Moro, que as confirmava e remetia à Polícia Federal. Eram colhidas provas através de busca e apreensão, grampos telefônicos, interrogatórios. O MPF pedia a prisão dos suspeitos e Moro sempre as confirmava. Todas as fases da Lava Jato seguiram o mesmo roteiro. E na instância superior, no TRF-4, quase todas as decisões são confirmadas.

O Procurador Geral da República Rodrigo Janot
Aparentemente, Janot não estava envolvido nas decisões dos Procuradores de Curitiba. É de se supor que nem soubesse dos pedidos de investigação, pelo menos, em detalhes. Como chefe da Procuradoria Geral, não se manifestou após a desastrada exibição televisiva da acusação contra Lula com o PowerPoint. Talvez nem soubesse da coletiva de imprensa convocada por Dalagnol para o espetáculo que se produziu.
Rodrigo Janot sempre esteve à margem de todas as operações da Lava Jato sem, entretanto, se distanciar do centro do processo. Era necessário que ele pedisse ao STF a abertura de inquéritos quando o investigado tinha foro especial. Deputados e Senadores petistas.

O Supremo Tribunal Federal e seus 11 juízes
Como disse Mário Sérgio Cortela, talvez nenhum de nós saiba dizer a escalação dos 11 jogadores que atuaram pela seleção brasileira no último jogo do Brasil, pelas eliminatórias da Copa. Mas o nome dos 11 juízes do STF, todos conhecemos. Nome e sobrenome.
O protagonismo dos magistrados da Corte Suprema nunca foi tão evidente. Entrevistas em jornais e TVs, coletivas quase diárias, manifestações de opinião frequentes, imagens nos telejornais, holofotes e microfones.
Uns mais falantes que outros, mas todos, sem exceção, eram personagens carimbados no Jornal Nacional desde a segunda campanha eleitoral de Dilma Rousseff. Ainda antes da abertura do processo de impeachment, em 2016.

O Congresso Nacional e Eduardo Cunha
Hoje se sabe, pela delação da JBS, que Cunha controlava boa parte dos Deputados Federais comprando votos em dinheiro vivo. Mas, mesmo antes da delação, todos sabiam do poder de Cunha no baixo clero da Câmara, comprovado por sua eleição à Presidência da mesma Câmara com larga margem de votos.
E, também, logo após a chantagem explícita feita contra o PT, para que a bancada não votasse pela abertura do processo de sua cassação no Conselho de Ética da casa, que resultou na aceitação do processo de impeachment contra Dilma.
Houve grande movimentação para que Deputados da base parlamentar de Dilma a traíssem. De todos os partidos, em especial os do PMDB de Cunha.
No Senado Federal, ocorreu o mesmo sob comando de Renan Calheiros, PMDB.

A oposição
A oposição ao Governo agiu como oposição. PSDB, DEM e PPS se mantiveram unidos ao PMDB, como era de se esperar.

michel temer
Talvez seja a figura menos importante na orquestra. Um músico minúsculo que pouco tocou, duas ou três notas, apenas. Nunca teve envergadura política para ser solista. Muito menos, regente.
Decorativo, marionete, protocolar, coadjuvante. Apenas aceitou servir aos interesses da orquestra em troca de, como se comprova hoje, dinheiro!
Não foi dele a articulação do golpe. Foi a herança que lhe caiu no colo por ter sido o vice na chapa vencedora.
A velha mídia
Cada um dos veículos de comunicação realizou seus solos durante a execução da música.
Descontentes com a redistribuição de verbas da publicidade oficial,entre outros motivos, tinham como meta derrubar o PT e destruir qualquer possibilidade de uma quinta vitória à Presidência da República.
Resultado de imagem para orquestrIsso ficou claro desde o primeiro governo Lula, na cobertura da AP 470, o mensalão. A ideia era impedir Lula de se reeleger deixando-o sangrar, como declarou FHC no ano de 2006.
Não surtiu efeito e o PT venceu as três eleições seguidas ainda que boa parte da imprensa se engajasse nas campanhas de Alckmin, Serra e Aécio. Sem resultado.
Para mim, a articulação intelectual do golpe, a organização das ações e o planejamento estratégico de marketing se localizam na velha mídia. Muito provavelmente na Rede Globo com participação e cooperação dos outros veículos de comunicação golpistas.
Um ou mais cérebros pensantes comandam a execução da sinfonia através de seus jornalistas e editores-chefes coordenando cada instrumento da orquestra, cada nota, cada solfejo, cada tom, cada grave e cada agudo.

Não é possível imaginar que um Juiz, um Procurador ou um delegado da Polícia Federal, gente preparada para julgar, denunciar ou cumprir mandatos, seja capaz de pensar nas formas como devem ser expostas suas ações técnicas à população.
Quem acredita que partiu de Deltan Dalagnol a ideia de montar a denúncia do PowerPoint para apresentação em entrevista coletiva?
Quem acredita que Sérgio Moro fosse capaz de vazar, por sua própria conta e risco, o grampo entre Lula e Marisa e seus filhos, ou entre Lula e Dilma, sabendo, como magistrado, da ilegalidade do ato? E no minuto certo para a repercussão no jornal da noite... Só se tivesse certeza de não ser punido.
Quem acredita que a Polícia Federal tivesse a genial ideia de criar um agente-garoto-propaganda, o japonês, a cada prisão de petista? Ou montar um aparato de SWAT, com helicópteros, máscaras ninja e sirenes para levar Lula, um homem de 70 anos, a depor no aeroporto de Congonhas sob intensa cobertura, desde a véspera, dos jornais?
Parece óbvio que o maestro era o condutor de cada gesto destes três grupos de músicos e que eles, cada um em seu momento, foi mero executor da partitura.

O mesmo se deu com Rodrigo Janot, com os 11 juízes do STF, com o PMDB de Eduardo Cunha e michel temer e com a oposição.
Cada ato, cada palavra, cada entrevista, cada editorial cuidadosamente elaborado para dar a sequência perfeita à melodia.

Então se deu o golpe, Dilma foi destituída e temer assumiu com o compromisso de privatizar e reformar tudo o que fosse possível para pagar pelo serviço aos grandes financiadores da derrubada de Dilma Rousseff: o mercado financeiro e grandes empresas, incluídas as petroleiras estrangeiras ávidas pelo Pré-Sal.

Mas, como nem sempre as orquestras terminam a música ao mesmo tempo, solistas e coadjuvantes decidiram continuar a tocar. Desta vez sem o maestro, que já não os controlava mais. Os músicos, diante da perda da função, não queriam voltar ao obscurantismo, ao anonimato, às profundezas de seus cargos públicos. Queriam mais, queriam tocar o que os fizesse continuar protagonistas.

Imagem relacionadaIsso não é apenas uma teoria.
Vejamos os fatos desde a queda de Dilma Rousseff.

1) Ainda útil, Sérgio Moro e seus Procuradores concursados são mantidos em evidência apenas para tirar Lula da corrida presidencial de 2018. Com grandes chances de vitória, Lula pode derrotar o golpe. De nada terá valido tirar Dilma e permitir a vitória de Lula.

2) Um dos músicos menos ouvidos, entretanto, acaba de demonstrar sua força. Rodrigo Janot.
Age sozinho, não é muito falante nem aparece com frequência nas TVs e jornais. Certamente possuiu algum respaldo no STF e na Procuradoria.
Foi ele que costurou a delação dos donos da JBS com todo o cuidado para não cometer os erros primários, mas propositais, da 13° Vara Federal de Curitiba.
Com uma rede de proteção contra vazamentos, envolveu um ou mais juízes do STF, delegados e agentes da PF e Procuradores sob seu comando. Acertou a negociação de benefícios com os irmãos Batista, da JBS, grampeou Senadores, Ministros do Supremo, Ministros da República e, até, o Presidente temer.
Montou uma peça de acusação como deve ser, com provas, documentos, áudios, vídeos, chips em malas de dinheiro previamente numerado.
Tudo pronto, encaminhou o pedido de inquérito ao Ministro Edson Fachin à revelia da Lava Jato e à revelia da própria TV Globo.

Notem que o vazamento ao jornal O Globo deixa claro que nem o conglomerado de mídia tinha conhecimento dos detalhes do processo. O portal G1 vazou à tardezinha mas o Jornal Nacional só teve conhecimento poucos momentos antes de entrar no ar. A ponto de os apresentadores posarem com ar de surpresa a cada texto que liam no teleprompter.

3) O STF sempre será o solista maior da orquestra. É dele que saem as decisões que colorem com um ar de legalidade o golpe. Os juízes sempre poderão anular o impeachment e responsabilizar os golpistas, não faltarão argumentos para que 6 dos 11 desmontem a farsa. Por isso é importante mantê-los sob controle do maestro. Por isso continuam diariamente expostos.

4) Sem utilidade, Eduardo Cunha é entregue a Moro e vai preso. Sua esposa, Cláudia Cruz e sua filha, Daniele Dytz, nunca foram indiciadas na Lava Jato. Certamente a pedido de Cunha e de quem o protege.
Mesmo preso, Cunha recebe mesada da JBS para manter seu silêncio.
Já o Congresso, parcialmente comprometido por idealismo ou dinheiro, se vê diante de seu maior dilema: aprovar medidas contra os trabalhadores e não ser reeleito em 2018.
Além disso, os que receberam benefícios em troca de apoio político podem ser presos caso percam o foro do STF.
A campanha 2018 para o Legislativo terá muitas acusações dos adversários e muitos Deputados e Senadores, com certeza, cairão. Tanto na direita quanto na esquerda.
De toda a orquestra, o Legislativo Federal é o mais sensível à opinião pública, mas só alguns poucos candidatos serão protegidos. Quais?

Resultado de imagem para orquestra5)  A oposição, PSDB, DEM e PPS, que esperava alguma vantagem no processo golpista, também se viu arrastada para o epicentro da delação da JBS. Num eventual governo tucano, Rodrigo Janot nunca seria reconduzido ao cargo de Procurador Geral e desapareceria por completo. Talvez essa seja a razão da inclusão de tucanos de penugem colorida.
Por falta de nomes, o PSDB deverá se lançar numa viagem suicida se apostar em Doria ou Huck ou, quem sabe, apostar em Bolsonaro ou Marina. Em qualquer cenário, perde espaço; seus poucos caciques foram desabilitados, diferentemente do PT que ainda tem Lula.

6) michel temer foi arremessado ao fundo do palco, sua partitura foi arrancada pelo jornalismo como quando um boi é atirado no rio para atrair as piranhas.
Acabou, é apenas questão de tempo. Completamente desmoralizado, apesar de alguns setores da imprensa ainda tentarem salvá-lo, está sem qualquer apoio. Nem nos jornais, nem no Congresso, nem nas ruas, onde nunca teve sustentação.


E a imprensa, e a Rede Globo?
Perdeu a articulação, o comando, a regência da orquestra. Seu jornalismo passou a ser pontual, é notório que, pelo menos a Globo, perdeu o controle de seus músicos. Talvez o erro tenha sido ignorar Janot ou, quem sabe, ter dado muito holofote a outros intérpretes.

Um conjunto de erros nos trouxe até aqui. Permitiram que solistas e coadjuvantes escolhessem sua partitura e cada um passou a tocar o que bem quis.
Uma coisa é certa: a velha mídia, em especial a Rede Globo, não vai permitir que Lula seja candidato. Se for, vai impedir que seja eleito. Se ele ganhar, vai obstruir sua posse e, se tomar posse, vai querer derrubá-lo com os meios que tiver. Qualquer um. Ou todos.

As manifestações públicas de Lula desde o processo de impeachment são claras e diretas. Os ataques à mídia e a Globo são frequentes e, caso a população o eleja, tomará medidas para tirar o poder imperial destes grupos políticos travestido de jornalistas.


Resultado de imagem para orquestraO Brasil está pegando fogo e tudo leva a crer que mais gasolina será jogada na fogueira.
Venho construindo essa tese desde a noite em que foi anunciada a vitória de Dilma Rousseff.
Para mim está bastante claro que a música que vimos ouvindo não é a música que gostaríamos de ouvir apesar de setores da classe média acreditarem que sim. Já vivemos momentos extremos de fragilização da Democracia no passado, mas, hoje, uma forte divisão se apoderou da sociedade brasileira e as consequências são incontroláveis.

Minha geração falhou.


Devíamos ter seguido a Argentina, Uruguai e, até, o Paraguai, tínhamos que ter apurado, julgado e condenado àqueles que nos roubaram a liberdade nos anos 60 e nos torturaram e mataram. Mas não. Permitimos que continuassem livres e no poder; deixamos que se aliassem à velha mídia e ao grande capital para produzirem mais pobres e miseráveis, para que nos comandassem as mentes e nos conduzissem ao teatro para que assistir a uma orquestra que não sabe tocar, para ouvir a música que não gostamos de ouvir, para nos fazer conviver com o cinismo da Democracia e da Liberdade individual que nunca existiu!

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Por uma questão de coerência, por ter tomado a decisão assim que Dilma Rousseff foi destituída, passei a grafar o nome "michel temer" com as iniciais Minúsculas, como ele.